CPI

Dudu, Lulu e Lau-Lau

Ex-secretário de FHC está na teia
de ligações da fantástica obra do TRT

Alexandre Oltramari e Sandra Brasil


Ricardo Stuckert

Eduardo Jorge, ex-secretário de FHC: 117 ligações telefônicas com o juiz Nicolau

– Só faltava essa.
Foi com essa frase que reagiu o presidente Fernando Henrique Cardoso na semana passada ao saber que o nome do ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira apareceu na CPI do Judiciário. A CPI descobriu que o juiz Nicolau dos Santos Neto, acusado de ter desviado 57 milhões de reais na construção do prédio do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo, tinha um animado canal de ligação com Eduardo Jorge, o homem que passou quatro anos dentro do Palácio do Planalto no posto de secretário-geral da Presidência. Na lista da CPI, constata-se que o juiz Nicolau dos Santos telefonou 108 vezes para o gabinete de Eduardo Jorge no palácio, oito vezes para seu escritório particular e uma vez para sua residência. Foram 117 ligações, que somadas rendem cerca de oito horas de conversa. Com esse pendor para o bate-papo inesgotável, cabe uma pergunta. De que tanto falavam o juiz Nicolau dos Santos e o ex-secretário Eduardo Jorge?

Recluso desde que depôs na CPI do Judiciário e se descobriu sua espantosa fortuna em imóveis, carros e outros luxos, o juiz Nicolau não explica nada. Já Eduardo Jorge, que assessorou FHC durante quinze anos, desde os tempos em que ele era senador até o ano passado, conta que os telefonemas tinham duas razões básicas. A principal era a nomeação de juízes classistas, pois cabia ao juiz Nicolau dos Santos fazer um "perfil ideológico" do classista indicado. Em segundo lugar, falavam sobre dissídios coletivos de categorias expressivas, como bancários ou metalúrgicos, para alertar o governo dos riscos de greves. "Nós não falávamos sobre a liberação de recursos para as obras do TRT", diz Eduardo Jorge, que deixou o governo em junho do ano passado para cuidar da campanha reeleitoral de Fernando Henrique e não voltou ao cargo. Pelo levantamento da CPI, verifica-se que os telefonemas entre o juiz e Eduardo Jorge começaram em abril de 1995 e terminaram em novembro de 1998. Nesse período, Nicolau não era mais presidente do TRT, cargo que deixou em setembro de 1992, mas apenas chefe da Comissão de Obras do TRT. Existe aí uma contradição. Ao depor na CPI do Judiciário, o juiz Nicolau dos Santos foi perguntado em que condição falava com o secretário do Planalto. Na época, o juiz informou que falava na "condição de presidente do TRT". Só que isso não é verdade. Sabe-se, agora, que era com o chefe das obras da nova sede do TRT paulista que o ex-secretário do Palácio do Planalto discutia greves e classistas. Segundo seus quatro sucessores no comando do TRT disseram à CPI do Judiciário, o juiz Nicolau dos Santos não tinha, desde que deixou a presidência do TRT em 1992, nenhuma outra incumbência além de cuidar da construção do prédio novo – e pedir verbas.

A construção do prédio do TRT começou a sair do papel em 1992 e hoje, depois de consumir a fábula de 263 milhões de reais, resta só um esqueleto. Houve tantas irregularidades que a obra está paralisada há oito meses. Os contatos telefônicos entre Eduardo Jorge e o juiz não são prova de que eles estivessem tratando desse assunto. Conhecidos há muitos anos, eles talvez falassem sobre tomates verdes fritos, da variação da temperatura em Estocolmo ou dos subterrâneos da espionagem governamental, pois ambos tinham gosto pelo assunto. Logo que assumiu a Secretaria Geral da Presidência, Eduardo Jorge controlava o serviço de inteligência do Planalto. Entre os amigos, chegou a ganhar o apelido de "Interpol". O juiz Nicolau dos Santos, que chegou a despachar no Planalto nos anos 60, também já colaborou informalmente com o SNI, o antigo serviço de espionagem do regime militar. Vai ver conversavam sobre a experiência em comum que possuíam no ramo. A cronologia da obra do TRT, da liberação de verbas e dos telefonemas entre juiz e ex-secretário, no entanto, revela algumas coincidências.

Iniciada em 1992, a sede do TRT paulista recebeu 21,6 milhões de dólares até outubro daquele ano, quando o país era presidido por Fernando Collor de Mello. Daí em diante, as verbas secaram e não houve liberação de um único centavo, até que, em maio de 1993, Eduardo Jorge virou assessor especial do Ministério da Fazenda, quando o ministro era Fernando Henrique Cardoso. De maio de 1993 a março de 1994, quando Eduardo Jorge deixou o ministério, houve seis liberações de verba para a obra, num total de mais de 14 milhões de dólares. Mas, até agora, a CPI não encontrou nenhum telefonema entre o juiz e o ex-secretário. As 117 ligações só começam a aparecer de 1995 em diante, quando Eduardo Jorge assume como secretário-geral da Presidência da República. De 1995 até o ano passado, o governo fez 31 liberações de verba – num total de 58,8 milhões de reais –, todas para a Ikal, empresa de Fábio Monteiro de Barros, executor da obra.

Cruzando as datas dos telefonemas com as das liberações de verba, chega-se a outra coincidência. Houve repasses precedidos por ligações do juiz ao ex-secretário. No dia 8 de junho de 1995, por exemplo, o juiz Nicolau dos Santos e Eduardo Jorge se falaram duas vezes. Um dia depois, o governo liberou uma parcela de 3,3 milhões de reais para a construção do TRT. No dia 22, ainda em junho de 1995, Nicolau ligou novamente duas vezes para Eduardo Jorge no Planalto. Quatro dias depois, saiu uma remessa de 1,6 milhão de reais para a obra. O maior repasse, de 10 milhões de reais, ocorreu no dia 18 de junho de 1998. Duas semanas antes desse despacho graúdo de dinheiro, o juiz Nicolau ligara três vezes, no intervalo de apenas uma hora, para Eduardo Jorge. Esses telefonemas, no entanto, não foram para o Palácio do Planalto, onde Eduardo Jorge tinha um gabinete. Foram para seu escritório particular.

Roberto Jayme
O senador Luiz Estevão, agora um "político nacional"


Teia de relações
– Ao longo dos quatro anos em que se manteve na secretaria da Presidência, Eduardo Jorge tinha, entre suas atribuições, a função de controlar os fundos de pensão, administrar a troca de favores com o Congresso Nacional e bisbilhotar a folha corrida dos indicados para cargos no governo. Oficialmente, cuidar de nomeação de juízes classistas não estava entre suas atribuições. Ainda assim, Eduardo Jorge pode ter sido incumbido dessa tarefa. O que complica a teia de relações é que o ex-secretário não tinha apenas ligações com Nicolau. Ele também é amigo do senador Luiz Estevão, do PMDB de Brasília. Há três semanas, a CPI descobriu que havia 48 telefonemas, de 1994 a 1998, entre o senador e o juiz. Também se descobriu que as empresas de propriedade do senador receberam 2,2 milhões de reais de Monteiro de Barros, dono da empresa responsável pela obra do TRT. No mesmo dia em que essas ligações entre Eduardo Jorge, o juiz Nicolau e o senador Luiz Estevão apareceram, começou a correr uma piada pela capital federal. Considerando que o juiz foi celebrizado pelo apelido de "Nicolau-lau-lau" e que alguns amigos chamam Eduardo Jorge de "Dudu", os observadores da cena brasiliense logo resolveram chamar Luiz Estevão de "Lulu". Pronto! Nos corredores da CPI do Judiciário, o simpático trio começou a ser chamado coletivamente de "Dudu, Lulu e Lau-Lau".

Antonio Milena
O esquema do TRT em São Paulo: desvio de pelo menos 57 milhões
Evelson de Freitas/Folha Imagem
O empresário Fábio Monteiro de Barros, dono da Ikal, que tocava a obra do TRT:
saco sem fundo


Dudu e Lulu são velhos conhecidos e têm uma sólida amizade que inclui a família de ambos. Já estiveram juntos em Nova York e se visitam aos domingos à noite quando passam horas conversando. Enquanto esteve trabalhando no Palácio do Planalto, Eduardo Jorge pedia a Luiz Estevão, que era então deputado distrital em Brasília, informações sobre a administração de Cristovam Buarque, o petista que governou Brasília até o ano passado. Não havia, nesses contatos, nada de irregular. Eduardo Jorge apenas tinha interesse em municiar o governo sobre a administração petista na hora de liberar verbas para Brasília. Quando Cleuci, filha de Luiz Estevão, foi seqüestrada, em 1997, Eduardo Jorge colocou toda a estrutura da Subsecretaria de Inteligência para grampear os seqüestradores. Também coube a ele convencer o tucanato do Distrito Federal a apoiar, no segundo turno da eleição do ano passado, o candidato Joaquim Roriz ao governo de Brasília. Com isso, atendia a um pedido de seu amigo Luiz Estevão, aliado de Joaquim Roriz, ainda que isso tenha significado, na prática, abandonar o candidato tucano, senador José Roberto Arruda. Eleito para o Senado, Luiz Estevão ainda montou seu gabinete com dois assessores que antes trabalhavam com Eduardo Jorge no palácio. "Sempre procurei o Eduardo Jorge em busca de orientação, pois eu era um político local que planejava ir para a política nacional", justifica o senador. Chegou lá, como senador da República. Mesmo que agora integre o trio "Dudu, Lulu e Lau-Lau". Como se viu, esse trio toca música de ouvido.




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